Morte
Regresso a Casa
Meu Amigo Professor,
quando avançamos no tempo um medo aterrador invade as nossas crenças,
invade as nossas muitas dúvidas.
Sim
estou a falar da morte, esse tabu que continua assustar e a entontecer a mente
racional do “homem”.
Lembro-me
que o meu Amigo nos ensinava a arte de viver, mas sempre ia dizendo que também
era uma arte regressar a “Casa”.
Disse-nos
que a Vida nunca deixava de ser Vida só porque regressávamos a “Casa”. Na sua
profunda Sabedoria deixava sempre alguma coisa para que em liberdade
entendêssemos por nós.
Se
o “homem” pudesse entender que não tem formas definidas, mas sim uma
“consciência pura”, a perspectiva da transmutação seria completamente
diferente.
Entenderia
que, o que na realidade acontece é um acto de “magia”, simplesmente o corpo
físico deixa de ter uma forma. Passamos apenas a ser a testemunha de dois
corpos que se separam.
O
movimento desse testemunhar deixa no caminho uma aura de luz brilhante, luz de
uma nova forma de Vida que começa.
O
meu Amigo Professor disse que a morte de um corpo só nos perturba, porque a
rejeitamos, porque temos medo de a assumir.
Também
fizemos essa rejeição quando acordamos para esta nova forma de Vida.
Mas
como podemos dizer a alguém que está de regresso a “Casa” para a aceitar sem
qualquer rejeição?
Já
sei que vai dizer que se nos agarramos à Vida, o Regresso será um pesadelo. Mas
enquanto o “homem” não destruir o mito da “morte”, ele não vai entender
verdadeiramente a Vida, não vai entender que é Eterno, na sua mente tudo acaba
com a “morte”.
Também
nos disse que se pudéssemos unir a meditação ao sono, a libertação do corpo era
suave e profunda.
Assim
como também que havia momentos em que iríamos dar a energia de Vida a um Amigo,
e outras vezes, a energia do Regresso a um outro Amigo, em ambos os casos a
Vida é a mesma, o que difere é a forma.
Se
na realidade pudéssemos entender que o que chamamos – morte – não é mais do que
um intervalo entre dois estados de consciência, querendo dizer que num momento
temos um corpo, no outro momento deixamos de o ter, mas a consciência pura
permanece, porque o que é eterno não deixa de o ser, só porque não temos um
corpo.
Há
uma frase sua que está no meu livro de memórias:
“Se
puderem entender a arte de “morrer”, vão “morrer” com um sorriso nos lábios”
Professor
tento ensinar aos meus “alunos” essa sua arte de “morrer”, mas como posso eu
transmiti-la, se ainda não pacifiquei as minhas memórias!
Há
distância, revejo-o numa dimensão que guardo no fundo da minha Alma, revejo-o
nas nossas longas conversas, nas minhas picardias de aluno inexperiente que
sabe tudo.
Hoje
há mesma distância sei que pouco sei, na realidade também guardo na minha Alma
de memórias, que o meu Amigo Professor é um Mestre, embora nos dissesse vezes
sem fim que não era.
Fomos
programados pelas religiões do passado e do presente, que quando “morrermos” os
bons vão para o céu, e os maus para o inferno.
Mas
o Professor sempre nos disse que o único inferno do “homem” é aquele que ele
faz a si mesmo.
Quanto
ao céu, ria-se quando falávamos nele.
Mas
nesse seu sorriso, estava implícito que não havia o céu inventado pela
ignorância do “homem”, e, que Deus algum separava os bons dos maus, como pode
alguém separar o que tanto Ama!
O
meu Amigo carteiro diz que sabe quando vai regressar a “Casa”, e quando esse
tempo chegar quer ter o maior sorriso da sua Vida, porque segundo as suas
palavras: “Não posso abraçar a outra forma de Vida,
com um sorriso fechado, numa “Casa” que tão bem conheço”.
O meu carteiro tem um dom especial, está
atento às muitas formas de Vida. Está a chamar-me à atenção que é tempo de
levar a minha carta de regresso ao meu Amigo Professor.
Ele
diz, que quando esse tempo chegar não o podemos adiar mais, na realidade a
minha carta vai deixar de me pertencer, para pertencer-lhe definitivamente, nas minhas mãos apenas ficou
de passagem.
Um
abraço numa dimensão que só os verdadeiros “Amigos” entendem.
Até
à próxima volta do correio.
Carlos Campos
